sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Batom na Caveira: entrevista com mulheres do BOPE.


Elas são as únicas mulheres entre os 400 homens do Bope, tropa de elite da Polícia Militar. Assim como os rapazes, sobem o morro, pegam em armas e negociam com traficantes. Mas, ao contrário deles, são vaidosas, adoram um esmalte colorido e não pedem para sair.

Foto: Daryan Dornelles

MC Quais foram as missões mais difíceis para cada uma de vocês?
Sargento Ana Para mim, foi essa dos Bombeiros, aqui no Rio. Em junho, eles fizeram uma manifestação de 13 horas para reivindicar aumento de salário. No meio do processo, arrebentaram os portões, invadiram o quartel e dominaram o pátio central. Havia crianças e mulheres lá e eles usaram mangueiras e marretas para o combate. Nós e a PM entramos com bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. Um coronel acabou ferido e 439 manifestantes foram presos. É muito triste entrar em conflito com irmãos de farda.
Capitão Bianca A ocupação das 13 favelas do Complexo do Alemão me marcou demais. [Em novembro, dois mil policiais civis e militares invadiram o morro para conter o tráfico de drogas e prender traficantes]. Já trabalhei em vários espaços de tensão, mas
a necessidade de um psicólogo ali era ainda maior. Qualquer passo errado poderia gerar uma crise. Foram duas semanas sem dormir direito, entre plantões no quartel e em casa, com o celular na mão. Mesmo cansada, eu tinha de motivar a tropa.
Soldado Ana Paula Foi muito cansativo. Fiquei de segunda-feira de uma semana a terça da outra dentro do quartel. Também fui para o confronto. Subi o morro e fiquei lá durante 24 horas sem saber quando eu ia voltar para casa. Teve gente que virou até 48 horas. Você imagina como é complicado? Não tem banheiro na favela. Pode parecer besteira, mas, para mulher, é importante. Ainda mais quando estamos naqueles dias. Homem faz [xixi] em algum cantinho, né? Para Fem é complicado.
MC O que é Fem?
Tenente Marlisa Fem é o modo como as policiais femininas são chamadas em qualquer batalhão da polícia, não só no Bope.
Capitão Bianca É assim: ‘Chama aquela Fem. Fala com aquela Fem’. Se pararmos para pensar, é discriminador. A gente não vira e diz “chama aquele Masc”. Mas a polícia é fundamentalmente masculina. Somos minoria mesmo.
MC Já sofreram bullying por ser mulher? Os caveiras fazem brincadeira de mau gosto?
Soldado Ana Paula Para qualquer mulher que chega no Bope, é como se fosse um teste. O aspecto psicológico precisa estar preparado, porque te testam o tempo todo. No início, os colegas não te olham, não falam com você, é como se, sem dizer, dissessem: “O que você veio fazer aqui?”. É bem “pede para sair”. Mas a gente não pede. A gente fica porque tem de ficar, merece e quer muito.
Capitão Bianca Percebi mais preconceito por ser psicóloga, do que por ser mulher. Muitos caveiras me viam como uma X-9 [delatora] e, por mais que tivessem problemas, se recusavam a falar comigo. Achavam que meu trabalho era besteira, papo-furado. Tipo: “Somos do Bope, homens de preto. Somos fortes. Não precisamos disso”. Hoje, três anos depois, conquistei meu espaço. Tem até quem me procure no corredor e diga: “É rapidinho, doutora. Não é consulta, não. Só um conselho...” e ficamos duas horas na escada [risos].
MC O que uma Fem tem que uma mulher comum não tem e vice-versa?
Tenente Marlisa Para ser Fem é preciso ter força física, persistência e desprendimento. Tem de estar disposta a se adaptar ao meio, a abrir mão da sua vida normal, de civil. A palavra de ordem é versatilidade. Se for cheia de não me toques, não dura. Fui a primeira Fem a fazer o curso do GAM [Grupamento Aéreo e Marítimo, responsável pelo patrulhamento aéreo e marítimo da costa fluminense]. Passei no processo seletivo, dificílimo. E, logo no primeiro dia, o coronel disse que eu tinha de raspar o cabelo. Reclamei que isso não estava escrito em lugar nenhum e disse que não ia cortar. Aí ele me explicou que, para que o meu cabelo não prendesse na corda que vai no helicóptero, eu teria de cortá-lo. Passei um dia pensando nisso e, como queria muito fazer o curso, decidi cortar. A cabeleireira fez um rabo alto e, “pá”, cortou de uma vez só. Chorava tanto no salão, que uma criancinha veio me consolar. “Fica calma, fica.” Doeu. Mas valeu. Fui a primeira colocada do curso e os homens que não entraram disseram, de inveja, que foi um curso de frutinha. É assim mesmo. Mulher na PM tem de provar mais que homem.
Soldado Ana Paula As civis têm fragilidades e direito de vivê-las. A gente não. Eu me achava uma fresca, hoje não mais. Não tenho TPM nem dor de cabeça. Até choro vendo tevê, mas aqui não — não posso mostrar minha parte frágil. Quando começou a UPP [Unidade de Polícia Pacificadora] na Cidade de Deus, as crianças se aproximaram de mim, deram desenhos, cartinhas. Uma menina com uniforme escolar me perguntou se eu tinha mãe e se conhecia o viaduto de Madureira [na Zona Oeste do Rio]. Ela devia ter uns 7 anos e disse que morava lá com a mãe, mas quando foi para a Cidade de Deus, os traficantes mataram o pai dela e mandaram a mãe embora. Ela ficou o tempo todo ao meu lado, segurando a minha mão e eu não sabia o que dizer. Isso mexeu muito comigo. Tive vontade de chorar, mas segurei. No quartel, liguei para o conselheiro e pedi que ele ajudasse a garota.
MC Como foi o curso de ingresso no Bope? Vocês passaram por aquelas provações do filme?
Capitão Bianca Não, não fizemos o Curso de Operações Especiais [que dura 14 semanas e forma os caveiras da linha de frente do Bope]. É muito duro para uma mulher, e bem pior do que mostra o filme, física e moralmente. Não podemos dar detalhes, mas acaba sendo incompatível com o perfil feminino. A nossa estrutura não sustenta. Só de armamento são mais ou menos 20 a 25 kg, fora a mochila, o fardamento. Já teve uma Fem da Marinha que se inscreveu no Cat [Curso de Ações Táticas, que dura cinco semanas e é cheio de agachamentos, flexões e outros exercícios puxados], mas não suportou.
Soldado Ana Paula Não somos frágeis, mas somos mulheres e a natureza nos deu limitações físicas. Vamos à operação, mas não podemos ser ponta de lança. Não entramos no Caveirão, só nas viaturas. Entramos nas favelas, fardadas, revistamos mulheres, ajudamos na negociação com traficantes, levamos armamentos e resgatamos o pessoal que entrou a pé.
MC Como vocês mantêm a forma?
Soldado Ana Paula Educação física duas vezes por semana é obrigatório para o batalhão todo. Tem corrida, flexão de braço, rapel, escalada. A gente também faz instruções de tiro, assiste a palestras, tudo em torno do nosso serviço, para não ficar defasada. O mais difícil é o fator surpresa. A educação física é às terças e quintas, mas, às vezes, você está subindo a escada, e o coronel te olha e manda correr, de surpresa. Imagina o que é você chegar de manhã numa segunda-feira e, do nada, ter de correr?

Nenhum comentário:

Postar um comentário